O Encarregado

Brasília, dia 23 de novembro. Segunda-feira, 23h45. O Encarregado foi finalmente incorporado à paisagem. A meio caminho entre o Hospital Sarah Kubitschek e o Pátio Brasil, sua silhueta se estendeu pela cena urbana e pelo semáforo, que era o seu ponto. Não cobrará mais os impostos da opressão. Brasiliários não conseguem mais enxergá-lo. Agora a chuva é sua, toda sua. A noite toda. Impiedosamente.

O Hábito em Dias de Chuva

Brasília, dia 22 de novembro. A senhora de branco não desistiu. Depois do temporal, ela apressou os passos seguindo pela entrequadra 306/307. Nenhuma palavra foi dita. Não se sabe se chegou a tempo.

Uso da Foice

Brasília, dia 21 de novembro. Mais um dia amanhece no Planalto Central. O JK de Niemeyer está imortalizado diante de todos os sóis. Passe por trás do monumento para fugir do trânsito da Esplanada, pegue o atalho e corra pela Avenida do Exército para chegar sem demora à Asa Norte.

Crepúsculo

Brasília, dia 20 de novembro. Noite e dia não vão se misturar no céu de Brasília. Sol e chuva, como água e óleo, disputarão o espaço na mistura heterogênea do horizonte. E não haverá escuridão absoluta. E raios e trovões vão balançar a cidade mas não lançarão todos os temporais. O meio tom estranho entre a não-escuridão e a não-claridade cegará mais uma vez os Brasiliários em todas as ruas, em todos os carros.

Foram Apenas Alguns Minutos

Brasília, dia 19 de novembro. Ao fim da tarde, serão apenas alguns minutos de chuva. A mulher conhecida pelos sapatos vermelhos e sombrinha colorida poderá finalmente sair às ruas. Andará em meio aos carros na W3, pisará nas poças e desprezará os sinais. Depois desaparecerá mais uma vez.

Rio Monumental

Brasília, dia 18 de novembro. No dia seguinte o Eixo Monumental será o leito raso de um longo rio. Os Ministérios, suas margens, que o conduzirão por cima do Congresso Nacional, passando veloz em frente ao Palácio do Planalto, levando consigo o Panteão da Liberdade para desaguar no oceano do Lago Paranoá, ligando finalmente a cidade de Brasília ao mar.

Depois daquela Aula

Brasília, dia 17 de novembro. Saindo da escola, dois jovens amigos serão surpreendidos por um temporal. Andarão desnorteados pela W3 Sul. Nos últimos meses do ano, os dias quentes sempre terminam com chuva.

Na Faixa

Brasília, dia 16 de novembro. De repente não choverá mais. O calor será insuportável. O sol que cegou os Brasiliários de Clarice queimará e deixará o ar difícil de respirar.

Pelo Retrovisor

Brasília, dia 15 de novembro. Uma tarde, ao sair do trabalho, o céu vai escurecer e um temporal vai desabar. Pegando o atalho pelo Parque da Cidade, você vai seguir contra a corrente de água que balança o carro. E será perseguido pelos faróis acesos de outra máquina qualquer. Pelo retrovisor.

E a Nave Pousou


Brasília, dia 14 de novembro. Na terra plana e molhada, outrora ocupada por seres de antigas civilizações, o que diria Clarice, ao ver surgir de repente a nave branca e gigante do Museu Nacional de Niemeyer? A porta que se abre e os líderes que começam a desembarcar. Brasília é um aeroporto. E todos estão de passagem.