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Brasília, dia 29 de novembro. Brasiliários se protegem da luz em seminvisibilidade. O sol queima pedras portuguesas e abre artérias azuladas no chão da cidade.
Brasília, dia 28 de novembro. A chuva já não assusta mais. Roupas molhadas, calçados pesados. Ficou decidido que ninguém sairia na rua protegido. O guarda-chuva foi proibido. Assim como se adaptaram ao sol, os Brasiliários começam a se adaptar à agua.
Brasília, dia 27 de novembro. Alguns dias são mais iguais do que outros. Quantas vezes neste ano um Brasiliário terá atravessado a mesma faixa de pedestre?
Brasília, dia 26 de novembro. Em noites de chuva ela circula pelo Setor de Clubes Norte, com guarda-chuva estampado, iluminando a escuridão da cidade.
Brasília, dia 25 de novembro. Neste lado da cidade, onde não há residências, só a obrigação do trabalho, as pessoas têm pressa. Passam correndo por quarteirões que não são de ninguém, escapando às ruas que, dizem, já colocaram raízes nos pés de alguém.
Brasília, dia 24 de novembro de 2009. Do alto do Setor Comercial Sul, as pessoas têm cabeça de guarda-chuva e pernas pequenas. Mas isso é só quando chove.
Brasília, dia 23 de novembro. Segunda-feira, 23h45. O Encarregado foi finalmente incorporado à paisagem. A meio caminho entre o Hospital Sarah Kubitschek e o Pátio Brasil, sua silhueta se estendeu pela cena urbana e pelo semáforo, que era o seu ponto. Não cobrará mais os impostos da opressão. Brasiliários não conseguem mais enxergá-lo. Agora a chuva é sua, toda sua. A noite toda. Impiedosamente.
Brasília, dia 22 de novembro. A senhora de branco não desistiu. Depois do temporal, ela apressou os passos seguindo pela entrequadra 306/307. Nenhuma palavra foi dita. Não se sabe se chegou a tempo.
Brasília, dia 21 de novembro. Mais um dia amanhece no Planalto Central. O JK de Niemeyer está imortalizado diante de todos os sóis. Passe por trás do monumento para fugir do trânsito da Esplanada, pegue o atalho e corra pela Avenida do Exército para chegar sem demora à Asa Norte.
Brasília, dia 20 de novembro. Noite e dia não vão se misturar no céu de Brasília. Sol e chuva, como água e óleo, disputarão o espaço na mistura heterogênea do horizonte. E não haverá escuridão absoluta. E raios e trovões vão balançar a cidade mas não lançarão todos os temporais. O meio tom estranho entre a não-escuridão e a não-claridade cegará mais uma vez os Brasiliários em todas as ruas, em todos os carros.