Nave em Repouso

Brasília, dia 16 de janeiro. O fogo se espalha no horizonte. O calor do dia inteiro pode queimar gente, bichos e cerrado. Mas a cidade é imune ao fogo. Suas construções resistem a tudo. Cinquenta anos depois, a capital está em reforma. A Catedral se vestiu de branco e guardou seus vitrais por enquanto.

Chapéu

Brasília, dia 15 de janeiro. Agora a chuva só vem à noite. Mas vem com tanta força que atravessa asfaltos. Só é aparada por grandes escudos epidérmicos naturais.

Dentro das Luzes da Cidade

Brasília, dia 8 de dezembro. Um dia a família cansa da calçada e da venda de balas. Abre o guarda-chuva e rompe o colorido da noite na direção de casa. A chuva para e o futuro não se guarda mais.

À Espera

Brasília, dia 7 de dezembro. Em um ponto difuso entre a escuridão do Cerrado e o Eixo Monumental, passageiros esperam o recolhedor nebuloso.

Cálice

Brasília, dia 6 de dezembro. De veias abertas e sangue correndo. Até que a cidade o esqueça.


Pedras e Fogo


 
Brasília, dia 5 de dezembro. Gabo chegou da Costa Rica na noite anterior. Mas não é a primeira vez que vem ao Brasil. Casou com uma menina de Olinda e trabalha nos sinais das capitais pra sustentar a filha. Conhece o fogo. Só acende as chamas quando o sol se põe. Dos carros as pessoas buzinam pra dar dinheiro. Um menino de rua veio pedir no mesmo sinal. Agora as pessoas fecham os vidros. As chamas se apagam. O menino quer dinheiro. Precisa do brilho do crack. O vendedor se esconde no estacionamento ao lado.

Operários e Espaçonaves

Brasília, dia 4 de dezembro. Primeiros raios de sol iluminam operários nas crateras da lua. Estão ali desde a escuridão. Entre a cúpula da Catedral e o anel do Museu Nacional eles esperam o primeiro ônibus que partirá para as novas construções da cidade-monumento.

O Guardião

Brasília, dia 3 de dezembro. O sol surpreende o último Brasiliário noturno. A noite se foi e ele demora a se recolher.

Amuletos

Brasília, dia 2 de dezembro. Tá relampiano. Vai pra rua da cidade. Exibe seu amuleto no corredor dos carros.

Escondidos

Brasília, dia 1° de dezembro. Planalto Central volta à velha rotina com a mudança do tempo. Na cidade se procura e se encontra, e se perde. Alguns se escondem na sua invisibilidade marginal, rastejando por baixo das pedras portuguesas, soterrando suas estruturas por dentro das artérias quentes da cidade, sentindo por cima os passos pesados da sociedade. Na cidade há uma guerra surda entre Brasiliários que pegam sua comida do lixo e os que pegam sua comida da mesa.