O Céu na Terra
Brasília, dia 9 de abril. Por dias seguidos percebe-se algum tremor, algum ruído, e então as cores quentes tomam o céu. Ela, que um dia pousou entre os ministérios, vai decolar pra sempre antes do fim de abril.
Seres da Natureza
Brasília, dia 30 de março. Brasília é concreto e é cerrado. Eis o paradoxo do planalto central. No centro a moderna civilização. No entorno a vida primitiva dos seres da natureza. E a harmonia se equilibra em pontas de cristais submersos.
De Passagem
Brasília, dia 27 de março. Aterrissou no Plano Piloto da capital às 11 horas. Bom dia, muita chuva, e por lá, calor abafado, sabe como é, blá, blá, blá, negócio fechado. Às 4 da tarde esperava a chuva passar olhando o Museu Nacional pela janela. Cinza, vento, relâmpagos, trovões. Acabou a luz, acabou o telefone. Mas esse temporal passa hoje? Pingos. Pingos. Pingos. Parou a chuva. Corre e pega um lugar na Asa Sul. A cidade decola e leva o visitante embora.
Dor da Noite
Brasília, dia 25 de março. E ela se agarra na gente como se a gente fosse o alimento necessário a sua sobrevivência nessa cidade. E ela cerca a gente. E ela apaga as luzes dos postes, abafa os sons da rua e derrama um temporal de repente. E a gente se encolhe, se assusta, olha pros lados desconfiado, anda rápido. Mas finalmente a gente sente o abraço desesperado da noite como fazem aqueles vampiros que não controlam sua pulsão pelo sangue dos outros.
Notívago
Brasília, dia 22 de março. Profissão: escritor. Identidade: desconhecida. Peso e altura: duas roupas e um guarda-chuva. Timbre de voz: não se ouviu. Quando na rua, ele se encolhe na imaginação.
Sobre o Dilúvio
Brasília, dia 17 de março. Foi anunciado. Prédios implodiram. A cidade ficou horizontal. A água não corre nem para um lado nem para o outro, equilibra-se no planalto central. E a cidade escorre por cima da água.
O circo não chegou
Brasília, dia 12 de março. Malabares, monociclos e chamas circulam pelos principais semáforos da cidade. Diziam que os palhaços tomariam as ruas, que os circos chegariam. Mas palhaços não riem. E a cidade ficou iluminada e triste.
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