Foram Apenas Alguns Minutos

Brasília, dia 19 de novembro. Ao fim da tarde, serão apenas alguns minutos de chuva. A mulher conhecida pelos sapatos vermelhos e sombrinha colorida poderá finalmente sair às ruas. Andará em meio aos carros na W3, pisará nas poças e desprezará os sinais. Depois desaparecerá mais uma vez.

Rio Monumental

Brasília, dia 18 de novembro. No dia seguinte o Eixo Monumental será o leito raso de um longo rio. Os Ministérios, suas margens, que o conduzirão por cima do Congresso Nacional, passando veloz em frente ao Palácio do Planalto, levando consigo o Panteão da Liberdade para desaguar no oceano do Lago Paranoá, ligando finalmente a cidade de Brasília ao mar.

Depois daquela Aula

Brasília, dia 17 de novembro. Saindo da escola, dois jovens amigos serão surpreendidos por um temporal. Andarão desnorteados pela W3 Sul. Nos últimos meses do ano, os dias quentes sempre terminam com chuva.

Na Faixa

Brasília, dia 16 de novembro. De repente não choverá mais. O calor será insuportável. O sol que cegou os Brasiliários de Clarice queimará e deixará o ar difícil de respirar.

Pelo Retrovisor

Brasília, dia 15 de novembro. Uma tarde, ao sair do trabalho, o céu vai escurecer e um temporal vai desabar. Pegando o atalho pelo Parque da Cidade, você vai seguir contra a corrente de água que balança o carro. E será perseguido pelos faróis acesos de outra máquina qualquer. Pelo retrovisor.

E a Nave Pousou


Brasília, dia 14 de novembro. Na terra plana e molhada, outrora ocupada por seres de antigas civilizações, o que diria Clarice, ao ver surgir de repente a nave branca e gigante do Museu Nacional de Niemeyer? A porta que se abre e os líderes que começam a desembarcar. Brasília é um aeroporto. E todos estão de passagem.

A Biblioteca

Brasília, dia 13 de novembro. A chuva caiu. As luzes se apagaram. A cidade estava vazia. Chove todo dia. A caminho da Biblioteca Nacional.

Brasiliários

Brasília, dia 12 de novembro. A cidade paisagem se torna superpovoada como pedia Clarice. Candangos convergem de volta à rodoviária do Eixo Monumental e serão distribuídos às pressas para suas cidades-satélite. Eles voltam para a periferia que passaram a ocupar depois que terminaram de construir a capital. "Em Brasília estão as crateras da lua."

No Horizonte

Brasília, dia 11 de novembro. Construção com espaço calculado para as nuvens. Cidade que se deita no horizonte. Essa beleza assustadora, essa cidade traçada no ar. Brasília fica à beira. Aqui criança não pode ficar de pé porque senão cai. Cai pra fora do mundo. Em cima da rodoviária, na via que cruza o eixo monumental, candangos aguardam o ônibus para casa, ao fim do expediente.

Tudo parece longe


Brasília, dia 10 de novembro. Além do vento há outra coisa que sopra. Algo na crispação sobrenatural do lago. Aqui o ser orgânico não se deteriora, petrifica-se. A natureza floresce gélida. Este grande silêncio visual. Clarice Lispector escreveu: "Se tirassem meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem." Há uma hora incógnita em que o maná desce e umedece as terras de Brasília.