Brasília, dia 12 de março. Malabares, monociclos e chamas circulam pelos principais semáforos da cidade. Diziam que os palhaços tomariam as ruas, que os circos chegariam. Mas palhaços não riem. E a cidade ficou iluminada e triste.
Beatriz
Brasília, dia 9 de março. Beatriz sonhou que atravessou a rua na frente daquele carro. Mas ela não conseguia enxergar quem estava dentro. E ficava angustiada. No sonho ela parava no meio da faixa de pedestre e encarava o parabrisa, a visão ofuscada pelos faróis. Mas no dia seguinte, quando ela voltava pra casa e, assustada, percebeu o fato se repetir, não teve coragem de olhar o carro. Sentia que a olhavam.
Litoral
Brasília, dia 8 de março. Toda vez que o mar vem é isso. Crescem coqueiros em segundos. Paira o sol poente sem se pôr. Brasiliários correm na mesma direção. Até que pára a brisa, some a maresia. Volta o cerrado.
Fugir da cidade
Brasília, dia 6 de março. Os prédios implodem. Desta vez sem aviso. A cidade será varrida de novo. Brasiliária foge da transformação em pressa disfarçada.
Sinal Fechado
Brasília, dia 4 de março. Um irá atravessar a rua. O outro não. Um irá olhar para trás. O outro não. Um irá se molhar na chuva. O outro não.
Quando esqueço como foi o dia
Brasília, dia 3 de março. Souto pensou em correr. Brasas podiam cair. Mas qualquer abrigo ficava a duas longas pistas dali. A cidade é aberta. Souto andou devagar. O céu se acalmou.
Brasília 18h
Brasília, dia 1° de março. A cidade girou mais uma vez. Acontece sempre que grandes grupos de brasiliários pisam com mais força sobre a faixa de pedestre da Rodoviária. Ela fica em cima do Eixo Monumental.
Brasília em Movimento
Brasília, dia 25 de fevereiro. O mundo mexeu. A cidade segurou mais firme seus alicerces e lançou suas nuvens, como ondas, cobrindo um dia que deveria terminar mais cedo. O organismo vivo de Brasília se deslocou a sudoeste, com impaciência. Os cristais subterrâneos balançaram mas não saíram do lugar.
Realidades Paralelas
Brasília, dia 23 de fevereiro. Encontrei Joana a caminho de um restaurante no final da Asa Aul. Ela andava entre os carros de cabeça erguida e um olhar que atravessava o tempo. Atravessava as pessoas, as quadras, a fome. Por isso que reencontrá-la dentro do restaurante foi qualquer coisa parecida com uma coincidência. Eu estava lá para almoçar, ela, para barganhar um copo de suco. Do alto de sua elegância, o mau cheiro da vida das ruas quase surpreende. Joana leva nas mãos o que diz ser os originais de um manuscrito sobre o crime organizado no país. Quem se aproxima dela é logo entrevistado. Pediu uma caneta, que a dela já havia se perdido: "Meu caro, a que Comando você pertence?"
Novos Candangos
Brasília, dia 19 de fevereiro. Em homenagem aos 80 mil trabalhadores que construíram a cidade de Brasília, Bruno Giorgi ergueu a escultura em bronze Os Guerreiros, em 1959. Cinquenta anos depois, Os Candangos - como ficaram mais conhecidos - acompanham uma nova geração de operários que trabalham na reforma da capital.
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