A Última Janela
Brasília, dia 21 de abril. No meio do Planalto Central, no campo do Eixo Monumental, um cinematógrafo voador projetou a porta de uma nova percepção. Todos os brasiliários foram chamados para a transmutação. A noite foi de grande movimento em direção à passagem luminosa. Um homem apareceu e contou o início da história, falou da construção, das chacinas e do sonho, mas nada comentou sobre a antiga civilização. Era o segredo, como já estava previsto para o juízo final.
O Céu na Terra
Brasília, dia 9 de abril. Por dias seguidos percebe-se algum tremor, algum ruído, e então as cores quentes tomam o céu. Ela, que um dia pousou entre os ministérios, vai decolar pra sempre antes do fim de abril.
Seres da Natureza
Brasília, dia 30 de março. Brasília é concreto e é cerrado. Eis o paradoxo do planalto central. No centro a moderna civilização. No entorno a vida primitiva dos seres da natureza. E a harmonia se equilibra em pontas de cristais submersos.
De Passagem
Brasília, dia 27 de março. Aterrissou no Plano Piloto da capital às 11 horas. Bom dia, muita chuva, e por lá, calor abafado, sabe como é, blá, blá, blá, negócio fechado. Às 4 da tarde esperava a chuva passar olhando o Museu Nacional pela janela. Cinza, vento, relâmpagos, trovões. Acabou a luz, acabou o telefone. Mas esse temporal passa hoje? Pingos. Pingos. Pingos. Parou a chuva. Corre e pega um lugar na Asa Sul. A cidade decola e leva o visitante embora.
Dor da Noite
Brasília, dia 25 de março. E ela se agarra na gente como se a gente fosse o alimento necessário a sua sobrevivência nessa cidade. E ela cerca a gente. E ela apaga as luzes dos postes, abafa os sons da rua e derrama um temporal de repente. E a gente se encolhe, se assusta, olha pros lados desconfiado, anda rápido. Mas finalmente a gente sente o abraço desesperado da noite como fazem aqueles vampiros que não controlam sua pulsão pelo sangue dos outros.
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